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Arquitetura: Blocos Lego de pedra como ar-condicionado

Simples e rápida é a construção de paredes com cubos de pedra maciços. A adega de vinhos de Gilles Perraudin de pedra maciça para o monastério de Solan, no sul da França. Foto: S. DemaillyDownload do artigo em pdf.

(Agosto 2009) O fato de o presidente italiano presentear seus convidos no Encontro de Cúpula do G-8 em L’Aquila julho passado com um livro em capa de mármore pode ter carregado um gesto simbólico involuntário. Afinal, no encontro os chefes de Estado concordaram pela primeira vez em conter o aumento do aquecimento global e nisso teria se oferecido a oportunidade de mencionar a indústria de pedras naturais da Itália.

Para que esse alvo climático seja alcançado, as emissões de dióxido de carbono, responsável pelo efeito estufa, devem ser reduzidas drasticamente e nisso as pedras naturais podem desempenhar papel importante. Muito do lançamento de dióxido de carbono na atmosfera provém da construção civil e das moradias.

As pedras naturais enquanto componente de construção têm características formidáveis: em sua produção não há qualquer emissão de gases, porque a pedra simplesmente já existe (diferente, por exemplo, do cimento, que precisa ser produzido em grandes fornos); seus resíduos podem ser reutilizados; os potenciais das pedras para conservação de energia são impressionantes, o que as pode transformar em condicionadores de ar naturais.

Além disso, blocos de construção feitos de pedras naturais praticamente podem ser reutilizados indefinidamente.

Com isso, chega-se ao ponto central da questão: construções maciças feitas de pedras naturais exigem um certo delta de imaginação e assim deixam-se viabilizar a curto prazo apenas em certos nichos de mercado. Primeiro é preciso que a demanda apareça, sobretudo de construtores ecologicamente conscientes, como demonstram exemplos da França. Ali há uma liderança mundial em termos de construções com pedras maciças.

Protagonistas desse desenvolvimento, após a Segunda Guerra Mundial, foram Paul Marcerou, proprietário de pedreira e talentoso inventor na arte de serrar pedras, e o arquiteto Fernand Pouillon. Eles aperfeiçoaram o conceito de pierres prétaillées, em tradução literal pedras pré-moldadas. Tratava-se de cubos de tamanho médio, que saiam prontos das pedreiras em poucos tamanhos standartizados, os quais só precisavam ser empilhados no local de obras.

Alguns milhares de apartamentos foram construídos a partir desse princípio Lego, famoso jogo infantil para construção de casas em miniatura. O mais famoso foi erigido em um bairro de Aix-en-Provence. Pouillon ergueu a parede externa de um prédio de vários andares com cubos de 80 cm de comprimento, por 40 cm de altura e 40 cm de profundidade. No interior do prédio havia paredes de sustentação de concreto armado.

Hoje o arquiteto Gilles Perraudin é um dos líderes na construção maciça com pedras. Também ele trabalha com pedras pré-moldadas, nos mesmos termos do princípio Lego. Chamou muita atenção sua adega de vinhos para o monastério de Solan, nas proximidades de Avignon. Ali os cubos medem 210 cm x 105 cm x 52 cm – e isso apenas em razão de que esse era o tamanho em que eram cortados os blocos nas pedreiras de calcareo da região.

A decisão da comunidade do monastério de Solan em favor das pedras se deveu a sua orientação consequente em favor da ecologia. Assim a ordem não queria que sua adega contivesse materiais que ao longo do tempo pudessem liberar substâncias tóxicas.

A economia de energia é uma outra diretriz da vida monástica. Para manter constante a temperatura da adega eles permitiram que Perraudin erguesse uma parede maciça: a pedra absorve o frio da noite e o devolve durante o calor do dia. A humidade do ar também age como elemento refrigerante, penetrando nos poros da pedra calcárea durante a noite e de dia evaporando e liberando calor.

Com apenas um mês, o tempo de construção foi extraordinariamente curto. „Com as dimensões de nossos blocos, em uma colocação lográvamos aprontar dois metros quadrados de parede“, esclarece Perraudin. Os blocos estão colocados sem quaisquer elementos de ligação, simplesmente colocados uns sobre os outros e são mantidos assim apenas por força de seu peso. A manta de cal hidráulica serve apenas para tornar as junturas impermeáveis ao vento. Com poeira de pedra da pedreira onde o material foi extraído, sua cor não se distingue do entorno.

Também para construções em climas frios a pedra natural poderia ser empregada como conservante térmico. Com questões dessa natureza ocupa-se Stefano Zerbi, que escreve seu doutorado sobre o tema na Universidade de Lausanne. Ele afirma que no norte é possível trazer para dentro de casa um „núcleo interno de pedra“. Isso soa dramático, mas significa apenas que ela possuirá um piso de pedra e paredes maciças, que podem reter calor. Também no inverno a energia seria proveniente do sol, quando mesmo ao meio-dia ele se encontra bastante baixo, pois seus raios passariam através de uma fachada de vidro voltada para o sul e aqueceriam o prédio. „Naturalmente também é necessário isolar termicamente a fachada norte“, acrescenta Zerbi.

Construções maciças também têm seu lado sombrio. Uma clara desvantagem é a espessura das paredes; perde-se área útil para economizar energia.

No entanto, apenas à primeira vista a pedra se apresenta como um material construtivo caro. Afinal, em construções maciças pode-se utilizar material de qualidade inferior. „Um bloco, cuja resistência tornasse impossível seu corte em finas camadas, ainda sim seria 100 % utilizável como material de construção“, garante Zerbi.

Além disso, a fachada não requer limpeza. E ainda mais: como a pedra na prática se mantém inalterada por tempo indeterminado, os blocos poderiam ser reutilizados, caso o prédio precise ser demolido.

Isso significaria uma mudança radical de pensamento, mais precisamente que a construção seja pensada também do ponto de vista de sua futura demolição. Em outros setores isso já é rotina: vários aparelhos domésticos já são construídos de modo que mais tarde possam ser divididos em seus grupos de material.

Isso traz um aspecto completamente novo para os custos da construção maciça com pedras naturais: o material se tornaria um investimento de longo prazo, que no momento da demolição pode retornar ao caixa.

Para tanto, os blocos devem poder ser retirados sem danos a sua forma original. Onde colocar então os dutos para água e eletricidade?

Nos anos 50 Fernand Pouillon colocou-os nas paredes internas de concreto. Gilles Perraudin hoje usa uma outra solução: ele se baseia também no prédio do Centre Pompidou em Paris, onde os arquitetos deixaram escadas e dutos visíveis desde a rua e desafia os arquitetos a conceberem „novas e inovadoras idéias“ para essas necessidades de instalação.

Também Zerbi é contrário à adaptação de blocos de pedra para dutos. „Um fio elétrico tem vida útil de algumas décadas, pedras duram centenas de anos e mais“, acrescenta.

O transporte de pedras maciças é caro, e desse modo deve-se utilizar apenas material encontrável na região da construção. E isso combina exatamente com a preocupação climática central: menos transporte é menos emissão de dióxido de carbono.

As experiência mostram que todos os tipos de pedras são utilizáveis em construções. Na Espanha e em Portugal existem construções modernas de pedra maciça em granito, afirma Gilles Perraudin. Stefano Zerbi ocupa-se do gneis de Tessin, sua região.

Pelo menos tão importante quanto as questões econômica e técnica é o que os arquitetos e construtores pensam do princípio Lego.

Zerbi gerou para um prédio de gneis diversas opções de fachada em seu computador, cambiáveis de acordo com a superfície desejada. Perraudin inflama-se com o tema. Ele afirma que com a construção de pedra sobre pedra „o arquiteto retorna à sua ocupação primordial“, ao invés de perder-se em materiais modernos e suas minúcias técnicas.

Livros de mármore para os chefes de Estado na Cúpula do G-8 2009.

A história completa das construções com pedras maciças na França pode ser lida na revista Pierre Actual (10/2007).

Gilles Perraudin (em francês)

Vídeo sobre construção com pedras maciças

Stefano Zerbi (Mail)

Outros exemplos:

Calder Ingenierie (em francês)

Stone Museum, Japão, de Kengo Kuma (2000)

Villas Vanille, Montpellier: divisórias de pedra entre casas (francês)

Fachada de pedra de Eric Perry Architects, Londres (1, 2)